O cliente que queria um site… mas não queria um site

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Mesa com computador e pilha de papéis chamada “briefing”, representando pedidos complexos disfarçados de simples.

Há pedidos que chegam com uma leveza tão grande que quase dá vontade de os emoldurar e pendurar na parede.
O mais clássico de todos?
Aquele sorriso simpático seguido de:

“Pedro, podias só fazer-me um sitezinho…”

Um sitezinho.
Como quem pede um café pingado, uma torrada ou “só ali um ajuste rápido”.
A palavra vem sempre acompanhada de uma inocência bonita e de alguma falta de noção do trabalho que está por trás do que aparece no browser.

Para muita gente, um site é uma espécie de micro-ondas digital: mete-se lá o conteúdo, carrega-se num botão e sai pronto.
A realidade?
É mais parecido com montar um armário do IKEA… com peças a mais… sem instruções… e com o cliente a perguntar se dá para ficar pronto antes de almoço.

1. O pedido real que nunca esqueço

Há tempo atrás recebi uma proposta que merece ser estudada pela comunidade científica.
Na altura ainda estava a trabalhar por conta de outrem, mas quis ouvir.
E o pedido vinha assim:

  • site criado de raiz (porque queria aprender a mexer nele sozinha)
  • agenda com marcações online
  • loja completa com produtos, carrinho e checkout
  • pagamentos via Klarna, MBWay e transferência
  • faturação automática integrada
  • área de cursos presenciais
  • área de cursos online
  • gestão simples para atualizar tudo sem depender de terceiros
  • design profissional com novas fotos

Tudo isto embrulhado na frase mágica:
“É só um sitezinho.”

E sem nunca ter falado de valores, percebia-se pela leveza do pedido que a expectativa era de algo “acessível”.
O problema não era o orçamento, era a falta de consciência do que estava realmente a ser pedido.

Porque aquilo não era um site.
Era um ecossistema digital completo, com loja, faturação, formação, integrações e autonomia total.
E, para completar, ainda vinha implícito um pedido de formação para aprender a gerir tudo sozinha.

Ou seja, um site completo + um curso completo.
Tudo dentro do mesmo pacote.

2. O briefing mais curto do mundo

O pedido costuma vir assim:

  • “Quero um site simples.”
  • “Com tudo.”
  • “Mas simples.”
  • “E rápido.”
  • “E barato.”
  • “E profissional.”
  • “E que eu possa mexer, mas que não dê problemas.”

É uma lista tão comum que já devia vir pré-instalada no WordPress.

3. O momento em que o “sitezinho” cresce

O site começa pequeno, claro.
Uma página.
Depois duas.
Depois três.
Depois “já agora podíamos pôr aqui uma área de clientes”.
E “uma agenda”.
E “um formulário”.
E “um sistema de reservas”.
E “um blog”.
E “um chatbot”.
E “um mapa”.
E “um catálogo”.
E “um botão que faz uma coisa que vi num site americano”.

O sitezinho transforma-se num sitezão antes de eu acabar o primeiro café.

4. O clássico: “Eu depois envio os textos

Este merece um prémio.

O cliente promete enviar os textos “ainda hoje”.
Passa uma semana.
Passa um mês.
Passa uma estação do ano.
E quando finalmente envia, vem tudo num ficheiro Word com:

  • frases sem pontuação
  • imagens de 72kb
  • um logo em PNG com fundo branco
  • e um texto que começa com “Olá, bom dia, espero que esteja tudo bem contigo”

E eu penso:
“Está. Mas o site não está.”

5. A metáfora perfeita

A falta de consciência é tão grande que às vezes apetece responder assim:

“Claro que faço o sitezinho. Mas quando eu for ao teu ateliê cortar o cabelo, também gostava que me desses o curso completo: colorimetria, corte, auxiliar de salão, tudo dentro dos 30 minutos do corte, para que da próxima vez eu possa ser autónomo.”

É exatamente isso que algumas pessoas pedem sem perceber.

Querem o site.
Querem a loja.
Querem a faturação.
Querem os cursos.
Querem aprender tudo (anos resumidos num par de horas).
Querem autonomia total.
E querem pagar como se fosse só… um sitezinho.

6. O final feliz (desejável)

A verdade é que, apesar de tudo, os pequenos negócios têm uma coisa maravilhosa:
Vontade de fazer bem.

E é aqui que entra a minha postura, aquela que aprendi e sempre tive como consultor ou assessor:
ouvir primeiro, para compreender necessidades e expectativas;
enquadrar a realidade, explicando o que é possível, o que é sensato e o que é sustentável;
sugerir o fato à medida, sem exageros, sem excessos, sem complicações;
e executar o plano com simplicidade, porque muitas vezes o menos é mais.

Quando o cliente percebe que um site não é só “um sitezinho”, mas sim a montra digital do negócio, tudo muda:

  • o briefing melhora
  • o conteúdo aparece
  • as decisões ficam mais claras
  • e o site ganha vida

No fim, o pretendido é que o cliente olhe para o resultado e diga:
“Era isto mesmo que eu queria.”

E nesse momento eu vou sorrir.
Porque, na verdade, é isso mesmo que eu procuro e quero ouvir.

Comentários

Uma resposta

  1. Avatar de ana Moreira
    ana Moreira

    há que consciencializar as pessoas do trabalho que está por trás, para perceberem que o valor pedido é realmente justo

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