Haja música

·

Walkman vintage azul e prateado com auscultadores e cassete ao lado sobre mesa de madeira, simbolizando a nostalgia da música portátil dos anos 80.

Há quem diga que a vida é uma peça de teatro. Eu prefiro vê‑la como um concerto. Com pausas, solos inesperados, momentos de improviso e aquela melodia de fundo que nos acompanha mesmo quando achamos que estamos em silêncio. A música faz parte da vida: faz‑nos mexer, andar, dançar, vibrar, e às vezes até pensar melhor.

Desde adolescente que a música me acompanha. Antes de existir Spotify, playlists inteligentes ou algoritmos que “adivinham” o que queremos ouvir, havia o Walkman. Esse tijolo mágico que nos dava liberdade sonora e pilhas gastas em igual medida. Era o meu companheiro de viagens de autocarro, de idas para a escola e de tardes em que rebobinar cassetes com uma caneta era quase um ritual zen.

1. O auto‑rádio e o início da independência sonora

Quando comprei o primeiro carro, o auto‑rádio era obrigatório (ou terei investido num auto-rádio com carro incluído?). Não era acessório, era identidade. A sensação de liberdade vinha tanto das rodas como das colunas. Ligar o motor, ajustar o volume e deixar que o mundo se organizasse ao ritmo da música era quase terapêutico.

Cada viagem tinha o seu género (aprecio quase todos): pop para dias leves, rock para dias longos, fado para noites introspectivas e, sempre, heavy metal para descarregar o stress acumulado. A música era o GPS emocional. E, raramente falhava o caminho.

2. O regresso da universidade e o “Oceano Pacífico”

Houve uma fase em que o regresso da universidade tinha banda sonora fixa: o “Oceano Pacífico” da RFM. Aquele programa de rádio que parecia feito para quem precisava de companhia sem conversa a mais. Era música calma, vozes tranquilas e aquela sensação de que, mesmo depois de um dia cheio, havia sempre espaço para respirar.

O rádio do carro tornava‑se quase um amigo silencioso, desses que não julgam, não interrompem e não pedem trabalhos para entregar na semana seguinte.

3. O rádio no trabalho: o som da produtividade

No trabalho, sempre que possível, havia um rádio a tocar. Chegámos a comprar um a dividir por todos os colegas, como quem investe num bem comum. Era o nosso pequeno escape, uma pausa invisível entre atendimento e reuniões.

Curiosamente, o rádio criava uma espécie de harmonia coletiva. Cada um com o seu gosto, mas todos a partilhar o mesmo som ambiente. E quando tocava uma música que alguém gostava, o sorriso era imediato, sem precisar de palavras.

4. Todos os estilos têm o seu momento

Pop ou rock, fado ou heavy metal — (quase) todos os estilos têm a sua beleza e o seu momento para tocar. A música é democrática: cabe em todos os humores e adapta‑se a todas as fases da vida. Há dias em que precisamos de ritmo, outros em que basta uma melodia calma para nos recentrar.

E há algo curioso: mesmo quem diz “não ligo muito à música” acaba por ter uma playlist invisível, aquela que toca quando o silêncio se torna demasiado sério.

5. A vida como concerto

Se a vida fosse uma peça de teatro, haveria ensaios, pausas e falas decoradas. Mas como concerto, há improviso, emoção e público que muda todos os dias. Nem sempre acertamos na nota, mas seguimos o ritmo — e isso basta.

Por isso, haja música! Para acompanhar, para inspirar, para lembrar que o som certo pode transformar até o dia mais banal num momento memorável.

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *