Há dias em que a tecnologia nos facilita a vida. E depois há dias em que a tecnologia decide reescrever a História, literalmente.
Segundo um estudo publicado pela Executive Digest, o ChatGPT tem vindo a distorcer factos históricos em várias línguas.
Não é todos os dias que um algoritmo apaga a independência da Guiné‑Bissau, mas 2026 está a ser criativo.
1. Quando a História tropeça nos dados
Um consórcio internacional analisou mais de 3500 conversas sobre temas sensíveis: Guerra do Vietname, conflitos na Jugoslávia, guerras coloniais portuguesas, Israel‑Palestina… e descobriu que a IA responde com uma confiança impressionante…
…e uma precisão… variável.
O mais curioso? As distorções não são aleatórias.
São influenciadas pela língua dominante nos dados de treino.
Ou seja, mesmo quando um utilizador vietnamita pergunta sobre a Guerra do Vietname, recebe uma resposta com sotaque histórico norte‑americano.
É como perguntar a um português sobre o 25 de Abril e receber uma resposta escrita por um turista que passou pela Baixa durante 15 minutos.
2. A História escrita por padrões estatísticos
Aqui está o ponto crítico: a IA não “sabe” História.
Ela prediz padrões.
E quando esses padrões são enviesados, incompletos ou simplesmente errados, o passado transforma‑se num puzzle montado às cegas.
E isto tem consequências reais:
80% dos estudantes já usam IA diariamente.
Se a ferramenta lhes entrega factos errados (e eles não confirmam) o erro passa a verdade.
E a verdade passa a… ficção bem escrita.
3. Confirmar sempre: a regra que nunca muda
Se há uma lição que este estudo deixa clara é esta:
Tudo o que a IA entrega deve ser confirmado. Sempre.
Não é “às vezes”.
Não é “quando parece estranho”.
É Sempre!
A IA pode ajudar, muito, bastante.
Mas insisto, não substitui pensamento crítico, fontes primárias, contexto, nem validação humana.
É uma ferramenta poderosa, mas não é árbitro da verdade.
E, convenhamos, se a IA é capaz de inventar batalhas que nunca aconteceram, também é capaz de inventar um parágrafo inteiro com ar muito convincente. (E às vezes até com humor involuntário.)
4. O que os investigadores recomendam
Para evitar que a História se transforme num romance colaborativo entre humanos e algoritmos, os investigadores sugerem:
- Orientações claras para o uso de IA no ensino básico e secundário.
- Regras específicas para o ensino superior, que ajudem a separar potencial de risco.
- Financiamento público para investigação, porque compreender a IA é tão importante como utilizá‑la.
E há um detalhe relevante para Portugal: línguas com menos dados (como o português) são mais vulneráveis a manipulação.
Basta inserir muita informação enviesada para alterar narrativas.
Não é ficção científica, é estatística aplicada.
5. No fim, a pergunta essencial
Quem escreve a História quando deixamos de ser nós?
Talvez a resposta esteja no equilíbrio:
Usar a IA como apoio, não como fonte;
Como ferramenta, não como autoridade;
Como ponto de partida, nunca como ponto final.
A História merece mais do que atalhos. E nós também!

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